“Botecamente” falando, saudade é uma palavra repleta de conteúdo, permeada de fatos e pessoas que fizeram ou fazem parte de nossas vidas. Este sentimento tem várias facetas, e por isto, se manifesta de inúmeras formas dependendo de algumas questões determinantes, como: a fase da vida em que estamos, problemas que estamos passando, a música que estamos ouvindo, aromas que sentimos inesperadamente, até mesmo palavras ou frases ditas de forma peculiar, entre tantos outros eventos ou adventos.
Pode-se dizer, embora de forma um tanto bairrista, que a saudade é um sentimento genuinamente brasileiro, pois esta palavra só existe em nosso vocabulário, em nossa língua “tupiniquim”. Outras nações, sejam elas vizinhas, distantes, ou até mesmo nossos ex-mandatários portugueses, podem até sentir algum tipo de vazio, ou amargor que se assemelhe a ela, mas não foram nem jamais seriam capazes de expressar-se. E é por isso que me pronuncio brasileiramente convencido de que, estes jamais sentirão aquele aperto bem no fundo do peito de uma saudade a brasileira, tampouco o calor do abraço que acalenta um reencontro com uma pessoa querida, ou mesmo o doce sabor de uma boa lembrança de história vivida, por exemplo.
A saudade nos acompanha desde o segundo inicial de vida, e quanto mais o tempo passa, e os dias se vão para que outros novos tempos nasçam, nossas saudades vão se renovando, ou se modificando. Querem evidências? Então lá vai. Quando nascemos, sofremos um desconforto muito grande por trocar o quentinho e protetor ventre materno, pelo cruel e impiedoso mundo do lado de fora. Choramos, choramos e choramos, pela saudade que sentimos do antigo habitat.
A partir daí, é só passar mais alguns dias de vida, que choramingamos em nossos berços e carrinhos de bebê, por saudade do colo e do seio materno. Logo logo, passamos a frequentar a escola, e num primeiro momento sentimos uma estranheza acompanhada daquela saudadezinha básica de nossa casa, de nossos pais. Porém, num piscar de olhos esta emoção se transforma em euforia, e na segunda semana de aula, meia hora antes de sair de casa, lá estamos, de lancheira e mochila repetindo: Anda logo pai! Vamos! Aí está a saudade da escola, dos coleguinhas, das “profes”, e ela é tanta, que até nossos aniversários são comemorados dentro da escola.
Então, chega a adolescência, fase em que, a público renegamos a saudade da infância, começamos a sentir saudades de amores que não sentimos, nos rebelamos com a severidade de nossos pais, e pra completar, sentimos saudade do que ainda não temos: da independência, do mundo livre e das decisões autônomas.
Porém, meus amigos, vejam só que surpresa! Quando nos deparamos com toda aquela independência almejada, quando estamos livres navegando nos mares do mundo, quando nos vemos frente a frente com o dia-a-dia, tendo que tomar nossas decisões autônomas, somos envoltos por alguns sentimentos, como: insegurança, incerteza, medo, saudade. Olha ela de novo aí, a saudade, desta vez de nossos pais, de sua experiência, seus conselhos, seus silêncios estrídulos, que tanto poderiam nos orientar nestas horas.
Poisé, o tempo passa e as lembranças se acumulam, as saudades mudam, aumentam, se confundem entre si, pois, temos saudades de praticamente tudo que passa em nossas vidas, inclusive de nós mesmos. O que nos retrata hoje, é uma equação, um cálculo complexo e com várias incógnitas. Todos nós, invariavelmente, seremos amanhã o resultado do ontem, mais o hoje, mais as expectativas do amanhã, elevadas na décima potencia, menos o ontem, dividido pelo tempo que levamos para enxergar o que fizemos, vezes a soma de tudo que faremos, sobre a raiz quadradamente torta de nossas origens. Tudo isso, menos o ontem, e a cada dia que passa, mais um vivido, e na contagem regressiva de nossas horas neste plano: menos 24.

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